O incidente ocorrido não é uma mera casualidade, embora tenha sido engendrado por vários motivos.
O ódio em relação à Rússia tem sido um elemento constante das organizações da direita polonesas. Os apelos ao ódio, cultivados há já muitos anos, viraram uma parte integrante da educação escolar, soam da boca de políticos, se divulgam pela mídia e se propagam pelas forças de extrema-direita. A Rússia e o presidente Vladimir Putin passaram a ocupar um lugar idêntico ao do diabo na doutrina da Igreja Católica Romana por serem vistos como a encarnação do espírito maligno do KGB, que anda assustando todo o mundo. Além disso, esse ódio não deixa de ser um elemento das relações internacionais polonesas e também da linha política inspirada pela Polônia no relacionamento entre a UE e a Rússia. Até o chefe da diplomacia polonesa não esconde defender as posições anti-russas, algo sem sem precedentes.
Nenhuma manifestação orquestrada pela oposição passa sem apelos anti-russos. O slogan "Vamos bater na gentalha vermelha com a foice e o martelo" tem sido entoado em quase todas campanhas e discursos públicos, vai soando durante os jogos de futebol e os retiros sob os auspícios da emissora católica Rádio Maria. E isto acontece ao longo de vários anos seguidos. A escalada do ódio atingiu o auge em pleno jogo de futebol entre as seleções russa e polonesa do Euro 2012.
A comunicação social carece de informações objetivas sobre a vida na Rússia. A sua imagem tem sido distorcida e apresentada de maneira tendenciosa. Um exemplo "clássico" são os artigos publicados pelo jornal Wyborcza.
Os sentimentos de ódio e repúdio se notam ainda na Igreja Católica, que não deixa de evocar a catástrofe de Smolensk ou alguns acontecimentos históricos. Assim, o púlpito das igrejas se transforma em tribuna política e os templos, em locais de acesas discussões por ocasião dos feriados nacionais do 3 de maio ou 15 de setembro, que coincidem com festas religiosas.
Quaisquer críticas dirigidas aos hierarcas têm sido encaradas, na maior das vezes, como um ataque à Igreja e os autores das críticas são vistos como inimigos a combater pela força das emoções. Uns 25% dos poloneses, norteados por sensações de desprezo e ódio à Rússia, continuam culpando Moscovo pela catástrofe de Smolensk.
Vale recordar que os atuais líderes poloneses – o primeiro-ministro e o presidente – são historiadores de profissão e antigos membros do movimento oposicionista Solidariedade. É por isso que eles não sabem "manter a distância" e uma atitude objetiva quanto ao passado remoto. Para eles, segundo disse o presidente Bronislaw Komorowski em seu discurso de 11 de novembro, a Polónia conquistou a independência duas vezes – em 1918 e 1989. Riscando o seu percurso profissional, estes líderes, cada um à sua maneira, vão cultivando o ódio em relação à Rússia. Igualmente se ignora e se menospreza a contribuição dada pelo exército polonês que, nos anos da Segunda Guerra Mundial, combateu ao lado do Exército Vermelho. Se rejeita ainda o período de reconstrução econômica pós-guerra por ser explicitamente "soviético e totalitário”, ligado à vergonhosa época de Stalinismo e da URSS. É assim que se ensina a história nos estabelecimentos de ensino poloneses. Até nas escolas primárias, os professores lecionam aos alunos lições de ódio em relação ao país vizinho e ao seu passado.
Os radicais da direita e os populistas são, na maioria, jovens privados da possibilidade legal de empregar devidamente a sua energia. Para eles, na ausência de boas iniciativas esportivas escolares, o esporte se associa aos distúrbios nos estádios. As aulas de educação religiosa superam, pelo número, as de educação física. A construção de novos campos de futebol no âmbito do programa governamental parece insuficiente. O esporte acadêmico tem sido acessível apenas a uma elite. O esporte em massa para a juventude não se pratica, tendo este se tornado em uma espécie de atividade lucrativa. O movimento de jovens voluntários, em voga na época socialista, se reduz à ação de grupos de elite que especulam a ideia de patriotismo.
E, enfim, uma das últimas causas – a visão da liberdade como um fenômeno anárquico, que menospreza as normas éticas e legais. E aí, novamente, intervêm os dirigentes do país – deputados do parlamento, juízes desonestos, policiais indulgentes e clérigos descomedidos e contrários à ética.
E se na Polônia de hoje existe um ódio oficial em relação à Rússia, se, em prol dos objetivos políticos conjunturais se modifica a história, se o desprezo e a agressividade são admissíveis e até aplaudíveis, se a mídia não cansa de fazer propaganda anti-russa e o conceito de liberdade se equipara à anarquia até no parlamento, não vejo nada de surpreendente no comportamento violento da juventude polonesa.

A geração jovem tem visto muitos exemplos negativos à sua volta.